sábado, junho 13, 2026
spot_img
HomeMMAUm triunfo alemão ridicularizado

Um triunfo alemão ridicularizado

Em 1930, Max Schmeling torna-se o primeiro e, até hoje, único campeão mundial alemão dos pesos pesados. Contra Jack Sharkey, porém, precisou de muita sorte.

Para Max Schmeling, foi tudo menos um momento triunfal.

Quando o «Ulan Negro do Reno» se sagrou campeão mundial dos pesos pesados na noite de 12 para 13 de junho de 1930, há 96 anos, no Yankee Stadium de Nova Iorque, a sorte ajudou bastante. O alemão de 29 anos já estava muito atrás na pontuação quando o seu adversário, Jack Sharkey, o derrubou com um golpe baixo e foi, por isso, desclassificado no quarto assalto.

Schmeling foi proclamado campeão mundial, mas teve de suportar muitas críticas por isso. O jornalista e Prémio Nobel da Paz Carl von Ossietzky descreveu mais tarde a sua atuação na revista Weltbühne como pouco digna de um campeão mundial.

Schmeling defende o título

«Há aqui uma estranha incongruência: o derrotado saiu por conta própria, enquanto o vencedor, que também não se tinha saído bem nas quatro rondas, teve de ser arrastado para a maca, meio desmaiado», comentou von Ossietzky.

Uma vez, Schmeling conseguiu defender o seu título com sucesso. Contra o norte-americano Young Stribling, venceu em julho de 1931, em Cleveland, por nocaute técnico no 15.º assalto.

Pouco menos de um ano depois, realizou-se em Nova Iorque a revanche contra Sharkey, e mais uma vez o duelo terminou com uma decisão escandalosa. Desta vez, Schmeling foi o melhor pugilista ao longo dos 15 assaltos, mas Sharkey foi declarado vencedor por pontos. Schmeling perdeu o seu título.

Ainda assim, o comerciante de formação recebeu a impressionante quantia de 700 000 dólares americanos pelo segundo combate contra Sharkey. Schmeling, nascido em Klein-Luckow, na região de Uckermark, era bastante conhecido na América, onde tinha encontrado o seu lar desportivo a partir de 1927. «Ele abdicou do título de campeão alemão para tratar da sua mão lesionada em troca de dólares americanos», escreveu Erich Kästner.

A propaganda nazi explorou ao máximo o triunfo de Schmeling

A reputação lendária de Schmeling na Alemanha não resulta, porém, em primeiro lugar, das lutas contra Sharkey. Foi antes o seu sucesso sensacional na luta de qualificação para o Campeonato do Mundo, a 19 de junho de 1936, contra o aparentemente imbatível Joe Louis, também no Yankee Stadium, que transformou a estrela num ícone.

O triunfo de Schmeling, que se encaixava na perfeição na visão de mundo racista da propaganda nazi, foi explorado em conformidade. «Foi uma vitória alemã», fez saber Joseph Goebbels, e o Berliner Lokalanzeiger titulou: «O Führer felicita Schmeling». O referido Adolf Hitler enviou flores à esposa de Schmeling.

O facto de a boa reputação de Schmeling se ter mantido também no pós-guerra deveu-se ao facto de ele ter recebido essa apropriação de forma relativamente reservada. Schmeling agradeceu ao povo e ao Führer, mas não deixou que a apropriação fosse além de um certo ponto: não aderiu ao NSDAP, manteve o seu empresário judeu, Joe Jacobs, e recusou até mesmo uma homenagem de Hitler. «Sou pugilista, não político», foi uma das suas frases mais famosas.

Como se soube mais tarde, Schmeling prestou até ajuda concreta às vítimas do regime de Hitler: em 1938, durante os pogroms de novembro, escondeu dois jovens judeus no seu quarto de hotel, ajudando-os assim a fugir. Isto só se tornou conhecido em 1989, quando os irmãos salvos se manifestaram nos EUA.

A segunda luta contra Louis durou pouco menos de dois minutos

A segunda luta entre Schmeling, hoje membro do «Hall of Fame do desporto alemão», e Louis, em que estava em jogo o título mundial em junho de 1938, durou pouco mais de dois minutos. Schmeling não teve hipótese, Louis tinha-se entretanto tornado um atleta de classe mundial maduro. Ninguém teria vencido o seu pai naquele dia, contou mais tarde o filho de Louis a Schmeling – que fez amizade com o seu rival.

Após o seu regresso dos EUA, Schmeling disputou ainda uma luta, que perdeu por pontos em 1948 contra o hamburguês Richard Voft.

Com a sua esposa, a atriz de cinema alemã-checa Anny Ondra, fixou-se em Wenzendorf, perto de Hamburgo. Foi lá que morreu, em 2005, aos 99 anos, o homem cuja reputação todos os pesos-pesados alemães tentam aproveitar até hoje – ao seu funeral compareceram, além dos grandes nomes do boxe Henry Maske e Wladimir Klitschko, também Uwe Seeler e Franz Beckenbauer.

O lendário campeão alemão, que era igualmente venerado, encontrou o seu último repouso na vizinha Hollenstedt.

RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Most Popular

Recent Comments