Teófilo Stevenson era um campeão recordista com potencial para se tornar tão grande quanto Muhammad Ali — mas, em nome do comunismo, o cubano, falecido há 14 anos, sacrificou a carreira profissional.
Reinava o luto nas ruas de Havana, e o mundo do boxe internacional estava de luto.
A 11 de janeiro de 2012 – há 14 anos – Teofilo Stevenson, o grande herói da orgulhosa nação do boxe que é Cuba, faleceu aos 60 anos devido a um ataque cardíaco.
O homem que foi o primeiro peso-pesado a conquistar três medalhas de ouro olímpicas consecutivas já era uma lenda em vida. E poderia ter-se tornado uma lenda ainda maior – se não tivesse insistido em princípios que, do ponto de vista atual, parecem impensáveis.
Teofilo Stevenson recusou combates com Muhammad Ali e companhia
«O melhor pugilista de peso-pesado chama-se Teofilo Stevenson. Nenhum dos campeões atuais teria hipótese contra ele», afirmou George Foreman, falecido este ano, no auge da carreira de Stevenson.
Muhammad Ali e Joe Frazier, dez anos mais velhos, queriam destruir a magia especial de Stevenson e atraí-lo para o mundo profissional com cachês milionários, mas Stevenson manteve-se inflexível.
O pugilista amador seguiu, como um soldado leal, as ordens do seu presidente comunista Fidel Castro e renunciou ao dinheiro e ao glamour.
«O que é um milhão de dólares contra oito milhões de cubanos que me amam», disse Stevenson, expressando assim o que o seu chefe de Estado sentia no fundo do coração.
No socialismo cubano, todas as pessoas deviam ser iguais; os desportistas não podiam constituir uma exceção. Em vez de seguirem as doces tentações do estrangeiro capitalista, os lutadores de Cuba tinham de promover o seu país nos Jogos Olímpicos. Stevenson levou a sério esta missão nacional com total convicção.
Momento de glória nos Jogos Olímpicos de 1972 em Munique
Logo na sua primeira participação olímpica, em 1972, em Munique, a sua estrela brilhou: o rapaz de origem humilde arrasou o primeiro adversário em 30 segundos. Na semifinal, nocauteou o campeão alemão Peter Hussing. Quando o seu adversário não compareceu à final, Teofilo Francisco Stevenson Lawrence tornou-se campeão olímpico – aos 20 anos.
«Estou completamente chocado. Ele era uma pessoa tão gentil e, na verdade, não faria mal a uma mosca. Ele limitava-se a lutar boxe, esse era o seu objetivo», disse Hussing após a sua derrota em Munique. «Nunca fui derrotado de forma tão contundente», admitiu o «Urso de Brachbach».
Boicote impediu quarta vitória olímpica
Em 1976, em Montreal, e em 1980, em Moscovo, Stevenson também conquistou o ouro – sem grande resistência.
O dominador cubano tornou-se, depois do húngaro Laszlo Papp (1948 a 1956), o primeiro pugilista da história a conquistar o ouro em três Jogos Olímpicos consecutivos.
Em 1984, ele almejava um quarto triunfo, mas, mais uma vez, o seu chefe de Estado frustrou os seus planos: Cuba boicotou os Jogos em Los Angeles, depois de os países ocidentais terem faltado a Moscovo quatro anos antes devido à intervenção da Rússia no Afeganistão.
Talvez tenha sido melhor para o mito Stevenson: no Campeonato Mundial Amador de Munique, em 1982, ele perdeu o brilho e foi surpreendentemente eliminado na fase preliminar pelo italiano Francesco Damiani.
Descoberto por um alemão
Stevenson, um pugilista de estatura elevada e que lutava sempre de pé – também três vezes campeão mundial no amadorismo –, era considerado, no auge da sua carreira, um pugilista de estilo que, tal como Ali, conseguia lutar com uma rapidez extraordinária para a sua categoria de peso.
Stevenson, nascido a 19 de março de 1952 em Puerto Padre, foi descoberto por um alemão: O treinador de boxe da RDA Kurt Rosentritt prestou ajuda ao desenvolvimento na ilha caribenha entre 1964 e 1968; o pai do jornalista desportivo berlinense e biógrafo de Sebastian Deisler, Michael Rosentritt, entregou a sua descoberta aos cuidados do mestre treinador cubano Alcides Sagarra, que transformou Stevenson num pugilista de topo.
Em Cuba, Stevenson foi um herói nacional até ao fim. Em 1976, foi eleito para a Assembleia Nacional, tendo-lhe seguido cargos como diretor da organização desportiva cubana e vice-presidente da federação nacional de boxe.
Fazia também parte do círculo íntimo de Fidel Castro – que sobreviveu ao seu pugilista de referência por quatro anos.






